Téo Vilela atua na vida pública desde os anos 1980 e, ao lado de Ronaldo Lessa, expõe a contradição no discurso de renovação do candidato tucano
O discurso de renovação adotado por JHC (PSDB) na disputa pelo Governo de Alagoas esbarra na própria fotografia de sua campanha. Enquanto promete romper com “40 anos de atraso”, o candidato divide o palanque com personagens que atravessaram essas mesmas quatro décadas de vida política no Estado.
Durante caminhada realizada em Maceió, JHC apareceu ao lado dos ex-governadores Teotonio Vilela Filho e Ronaldo Lessa. A imagem reuniu o candidato que se apresenta como símbolo do novo e dois políticos com longa trajetória nos espaços de poder em Alagoas.
Téo Vilela atua na vida pública desde a década de 1980. Sua trajetória política, portanto, alcança praticamente todo o período que JHC passou a classificar como sinônimo de atraso.
Além dessa presença ao longo de quatro décadas, Vilela governou Alagoas durante oito anos, entre 2007 e 2014. Antes dele, Ronaldo Lessa também comandou o Estado por dois mandatos, de 1999 a 2006.
Somados, os dois aliados estiveram à frente do Governo de Alagoas durante 16 anos. Mas a contradição vai além desse tempo no Palácio República dos Palmares: o palanque de JHC reúne protagonistas que participaram diretamente da política estadual durante praticamente todo o período que ele afirma combater.
A pergunta, portanto, é inevitável: os aliados de JHC fazem parte dos “40 anos de atraso” ou foram retirados dessa conta depois de aderirem à sua candidatura?
Se fazem parte, JHC tenta vender uma ruptura apoiado por representantes do passado que condena. Se não fazem, precisa explicar ao eleitor quais governos, grupos e personagens estão incluídos em seu recorte histórico.
Téo atravessa as quatro décadas
O caso de Téo Vilela torna a contradição ainda mais evidente. Além de participar da vida pública desde os anos 1980, o ex-governador pertence ao PSDB, partido pelo qual JHC disputa o governo.
Sua presença na campanha não pode ser tratada apenas como uma fotografia ocasional. Téo integra o mesmo campo partidário do candidato e aparece em posição de destaque nos atos eleitorais.
JHC promete representar um novo tempo ao lado de um político cuja trajetória pública atravessa justamente as quatro décadas que ele escolheu atacar.
Indicadores ao fim da gestão tucana
Os dados registrados no fim da administração de Téo também ajudam a dimensionar o contraste entre o discurso atual e o legado do aliado.
Informações do IBGE referentes a 2014, último ano do governo de Vilela, mostram que 21,5% dos alagoanos viviam com renda domiciliar per capita de até um quarto do salário mínimo.
O rendimento domiciliar per capita em Alagoas era de R$ 604, enquanto a média brasileira alcançava R$ 1.052.
Naquele ano, o Estado também apresentava a menor expectativa de vida masculina do país, de 66,2 anos. A mortalidade infantil permanecia acima de 20 mortes de crianças menores de um ano para cada mil nascidos vivos.
Esses dados não significam que todos os problemas tenham sido provocados pelo governo de Téo Vilela. Muitos são históricos e estruturais. Os indicadores, porém, mostram a situação social de Alagoas ao fim dos oito anos em que o tucano comandou o Estado.
É justamente esse ex-governador, presente na política alagoana há mais de quatro décadas, que agora acompanha JHC na promessa de combater “40 anos de atraso”.
Lessa permanece na órbita do poder
Ronaldo Lessa também desafia o discurso de renovação. Ex-prefeito de Maceió e governador por dois mandatos, ele rompeu com o grupo político de Paulo Dantas e Renan Filho e se aproximou de JHC em 2026.
Inicialmente, Lessa foi apresentado como possível candidato a vice-governador. A vaga, porém, terminou entregue a Célia Rocha.
Depois, o ex-governador apareceu como segundo suplente de Marina Candia na disputa pelo Senado. Renunciou à posição e acabou fora da chapa majoritária.
Mesmo sem integrar formalmente a chapa, Lessa recebeu de JHC a promessa de assumir a presidência do Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza (Fecoep), caso o candidato tucano seja eleito.
A relação, portanto, não se limita a um apoio eleitoral. JHC já anunciou a intenção de reservar espaço em seu eventual governo a um político que comandou Alagoas durante oito anos e permanece há décadas no centro das articulações estaduais.
O palanque desmente o discurso
JHC tenta apresentar sua candidatura como uma ruptura com os grupos que se alternaram no comando de Alagoas. O próprio palanque, no entanto, conta uma história diferente.
De um lado está Téo Vilela, presente na vida pública desde a década de 1980, governador por dois mandatos e filiado ao mesmo partido de JHC. Do outro, Ronaldo Lessa, também ex-governador por oito anos e já anunciado para ocupar espaço numa eventual administração tucana.
Não são apenas dois aliados que governaram o Estado durante 16 anos. São personagens cujas trajetórias atravessam grande parte das quatro décadas condenadas pelo candidato.
JHC pode insistir no discurso de mudança. Mas, na política, o palanque também revela um projeto. E o seu carrega a imagem do mesmo passado que ele tenta transformar em adversário.


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